sábado, 14 de novembro de 2009

Uma noite quente, cigarros e os vultos das minhas tristes putas




Imóvel, acompanhava só com os olhos o fado do ventilador girar de um lado para o outro, sem sequer ficar tonto. Meu corpo ainda suava freneticamente e, entre uma tragada e outra, tentava recuperar o fôlego que havia escapado dos meus pulmões. As pernas ainda estavam bambas. Havia me saciado como um animal faminto: sem piedade, calculista e com instintos à flora. Elas, como boas servidoras, saciaram toda a minha vontade por luxúria. Sim, elas, no plural. Minhas amantes, mulheres libidinosas, meus pecados; minhas putas. Cada uma com seu jeito de me enlaçar, domar e prender em seus convidativos pares de coxas.
A mulata tinha olhos de avelã: tão deliciosos quanto a mesma. Nem muito alta, nem muito baixa; tinha ganhando as medidas certas para enlouquecer um conquistador inveterado. Soava como o samba, a bossa, o chorinho; passava pela salsa e suas rodopiadas. Cheirava a mar, morangos e cigarros. Hollywood, na tentativa de uma dia virar estrela conhecida. Por enquanto, só brilhava em alguns lencóis por aí, nem sempre tão brancos. Seu nome de certidão: Lucrécia, mas era conhecida como Lulu Night (em inglês só para dar a sensação de que era artista), pelos frequentadores de seus territórios. Inclusive, eu.
A outra era um tanto pálida. Tinha sinais espalhados por todo o corpo, fazendo o olhar se perder em algum cruzamento. Cabelos curtos, boca carnuda, alta, com mãos ágeis e habilidosas. Essa soava como o jazz, o rock, o pop; às vezes como o blues. Exalava cheiro de incenso, baunilha e cigarros. Não me lembro a marca; é estrangeira, tem nome complicado e é tudo que sei. Tinha bom gosto, era refinada. Fora criada em uma família de posses, mas logo se perdeu, possuída pelos mais diversos tipos. Não aspirava algo em especial como a mulata, mas sempre suspirava pelos cantos. Seu nome, Eduarda. Mas era por Grampola que respondia.
E eu as tinha agora. As duas, levadas ao mundo dos sonhos por Morfeu. Expeliam prazer pelos poros da pele, distribuíam carícias com as mãos, irrigavam-me com as línguas. Mas estavam vazias. Estavam vazias e tristes e eram seus olhos que as denunciavam. Acendi outro cigarro na tentativa de distrair-me daquelas janelas sorumbáticas. Mas em vão. Eu já estava preso, envolvido, tocado. Só me restava olhar mais fundo, explorar. E quando pensei que houvesse me perdido em algum labirinto, foi que achei o tumor, a causa de tanta melancolia: os olhos estavam implorando, em pró delas, para serem amadas, cativadas, aconchegadas. Queriam ser putas de um só homem. Queriam um homem só para serem putas.
Comovido, confuso e tentado ao convite de tê-las para mim, acendi mais um cigarro na esperança de entreter-me com a fumaça. Maldita hora que fui me meter a besta de ler os desejos dos olhos de uma puta. Ainda por cima, de duas.
Ah! vamos lá homem...Não deve ser tão ruim assim tentar juntar corações desabrigados. Ou é?
Equanto não descubro, acendo um cigarro.





P.S.: Gente finalmente achei o tal do tempo e um texto! Obrigada a todos pelos recados de incentivo. Um cheiro apertado em cada um: nos que já são de casa e os que estão chegando. Bom final de semana.
P.S.2: Quando disse que seria breve, nem mesmo eu tinha noção que realmente fosse tão rápido. Coisas do tempo zombador, vai saber...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Apenas uma explicação breve...

Olá, tem alguém aí? ?Ah, sim...
Bem, como vocês perceberam meus caros, ando sumida da blogsfera.
Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e tenho deixado o mesmo escapulir entre os dedos.
Assim que conseguir respirar, ajeito tudo aqui. Mas não se preocupem: será em breve; em breve.
Já tenho alguns textos fresquinhos prontos para serem devorados por vocês.
Aguardem mais uns dias.

Um cheiro a todos!
Naila de Souza

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Os olhos aquário

(efeito que minha máquina se imcubiu de fazer sozinha.)


O olhar límpido, sua retina brilhante... Sempre me dá a sensação de que estou ali nadando, desbravando, e mergulhando ora mais raso, ora mais fundo.

Ah!, esses olhos aquário...Um dia ainda me sugam, me puxam, me levam.
Enquanto isso, me faço rede, me faço peixe, me faço imagem.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Dias imprevisíveis, por favor.

Esses dias, enquanto dançava ao som do radinho de pilha de um estranho que estava no ponto de ônibus, pude chegar mais uma vez à conclusão que o excitante da vida é essa condição de ser imprevisível.

Andar sem rumo e mesmo assim chegar a algum lugar, virar uma esquina e tropeçar com o surpreendente, seguir em frente e reconhecer um olhar desconhecido. Falar sem saber se alguém está gravando suas palavras; dizer não querendo dizer sim, e sim quando não. Ri do nada. Chorar de tudo. Ser mais e menos. Se doar sem saber se irão lhe querer.
Não ter coisa alguma ao alcance do seu controle.

Transar com a vida todos os dias, brincar em suas curvas, explorar suas idas, suas vindas; senti-la em posse, senti-la dançar fora do ritmo...
É assim que quero que imprevisivelmente aconteça.




Todos os dias.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

De ser yin-yang



Enquanto ele rói as unhas impacientemente, ela, deitada no sofá, canta Elis e suas mil perguntas sem respostas. Olha-o andar de um lado a outro da sala, com uma expressão tensa. "Sempre cora as bochechas quando está nervoso", pensou nisso e deixou escapar um riso.

Ele sempre reage assim a um problema. Anda a casa toda, senta mas já levanta na mesma hora, perde seu sono pelos cantos, esquece de comer. Esbraveja, grita, cala. Ora quer desistir de tudo, mandar tudo pro inferno e sair por aí sem rumo; ora diz que irá resistir, que não irá entregar as coisas assim tão fácil.
Ela por sua vez é seu oposto. Respira fundo e segue a cantarolar ou contar até dez; isso sempre resolve. Se agarra à Sra. Calma e não desgruda. Chega a ser irritante tamanha serenidade. Não faz bico, careta, nem fecha o tempo; prefere sorri. E sorri com tanta ternura, com tanto gosto, que contagia tudo que está em volta.

Há dias em que tudo são suspiros: riem da mesma piada sem graça; cantam juntos músicas que ninguém mais quer ouvir; dançam ao som do trânsito caótico lá fora; adivinham as nuvens; sussurram juntos.
Mas também há aqueles dias em que um não entende a língua do outro: ela quer azul, ele traz vermelho; ele fala vitamina de banana e ela café com pão; ela quer colorido, ele preto e branco; ele quer ver o boletim de esportes, ela quer saber como anda o tempo. Ele quer amor, ela só sexo.

Discordam, desafinam, se estranham. Mas resistem à esses dissabores.

Porque sabem que uma pessoa não ama outra só porque é educada, veste-se bem e é fã do Caetano ou Elis. Isso são só referências, detalhes, bônus.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pelo silêncio, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Não requer conhecimento prévio, nem vastas experiências de vida. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível.

Ama-se por ser exatamente igual, por ser exatamente oposto.