Imóvel, acompanhava só com os olhos o fado do ventilador girar de um lado para o outro, sem sequer ficar tonto. Meu corpo ainda suava freneticamente e, entre uma tragada e outra, tentava recuperar o fôlego que havia escapado dos meus pulmões. As pernas ainda estavam bambas. Havia me saciado como um animal faminto: sem piedade, calculista e com instintos à flora. Elas, como boas servidoras, saciaram toda a minha vontade por luxúria. Sim, elas, no plural. Minhas amantes, mulheres libidinosas, meus pecados; minhas putas. Cada uma com seu jeito de me enlaçar, domar e prender em seus convidativos pares de coxas.
A mulata tinha olhos de avelã: tão deliciosos quanto a mesma. Nem muito alta, nem muito baixa; tinha ganhando as medidas certas para enlouquecer um conquistador inveterado. Soava como o samba, a bossa, o chorinho; passava pela salsa e suas rodopiadas. Cheirava a mar, morangos e cigarros. Hollywood, na tentativa de uma dia virar estrela conhecida. Por enquanto, só brilhava em alguns lencóis por aí, nem sempre tão brancos. Seu nome de certidão: Lucrécia, mas era conhecida como Lulu Night (em inglês só para dar a sensação de que era artista), pelos frequentadores de seus territórios. Inclusive, eu.
A outra era um tanto pálida. Tinha sinais espalhados por todo o corpo, fazendo o olhar se perder em algum cruzamento. Cabelos curtos, boca carnuda, alta, com mãos ágeis e habilidosas. Essa soava como o jazz, o rock, o pop; às vezes como o blues. Exalava cheiro de incenso, baunilha e cigarros. Não me lembro a marca; é estrangeira, tem nome complicado e é tudo que sei. Tinha bom gosto, era refinada. Fora criada em uma família de posses, mas logo se perdeu, possuída pelos mais diversos tipos. Não aspirava algo em especial como a mulata, mas sempre suspirava pelos cantos. Seu nome, Eduarda. Mas era por Grampola que respondia.
E eu as tinha agora. As duas, levadas ao mundo dos sonhos por Morfeu. Expeliam prazer pelos poros da pele, distribuíam carícias com as mãos, irrigavam-me com as línguas. Mas estavam vazias. Estavam vazias e tristes e eram seus olhos que as denunciavam. Acendi outro cigarro na tentativa de distrair-me daquelas janelas sorumbáticas. Mas em vão. Eu já estava preso, envolvido, tocado. Só me restava olhar mais fundo, explorar. E quando pensei que houvesse me perdido em algum labirinto, foi que achei o tumor, a causa de tanta melancolia: os olhos estavam implorando, em pró delas, para serem amadas, cativadas, aconchegadas. Queriam ser putas de um só homem. Queriam um homem só para serem putas.
Comovido, confuso e tentado ao convite de tê-las para mim, acendi mais um cigarro na esperança de entreter-me com a fumaça. Maldita hora que fui me meter a besta de ler os desejos dos olhos de uma puta. Ainda por cima, de duas.
Ah! vamos lá homem...Não deve ser tão ruim assim tentar juntar corações desabrigados. Ou é?
Equanto não descubro, acendo um cigarro.
P.S.: Gente finalmente achei o tal do tempo e um texto! Obrigada a todos pelos recados de incentivo. Um cheiro apertado em cada um: nos que já são de casa e os que estão chegando. Bom final de semana.
P.S.2: Quando disse que seria breve, nem mesmo eu tinha noção que realmente fosse tão rápido. Coisas do tempo zombador, vai saber...