terça-feira, 20 de outubro de 2009

De ser yin-yang



Enquanto ele rói as unhas impacientemente, ela, deitada no sofá, canta Elis e suas mil perguntas sem respostas. Olha-o andar de um lado a outro da sala, com uma expressão tensa. "Sempre cora as bochechas quando está nervoso", pensou nisso e deixou escapar um riso.

Ele sempre reage assim a um problema. Anda a casa toda, senta mas já levanta na mesma hora, perde seu sono pelos cantos, esquece de comer. Esbraveja, grita, cala. Ora quer desistir de tudo, mandar tudo pro inferno e sair por aí sem rumo; ora diz que irá resistir, que não irá entregar as coisas assim tão fácil.
Ela por sua vez é seu oposto. Respira fundo e segue a cantarolar ou contar até dez; isso sempre resolve. Se agarra à Sra. Calma e não desgruda. Chega a ser irritante tamanha serenidade. Não faz bico, careta, nem fecha o tempo; prefere sorri. E sorri com tanta ternura, com tanto gosto, que contagia tudo que está em volta.

Há dias em que tudo são suspiros: riem da mesma piada sem graça; cantam juntos músicas que ninguém mais quer ouvir; dançam ao som do trânsito caótico lá fora; adivinham as nuvens; sussurram juntos.
Mas também há aqueles dias em que um não entende a língua do outro: ela quer azul, ele traz vermelho; ele fala vitamina de banana e ela café com pão; ela quer colorido, ele preto e branco; ele quer ver o boletim de esportes, ela quer saber como anda o tempo. Ele quer amor, ela só sexo.

Discordam, desafinam, se estranham. Mas resistem à esses dissabores.

Porque sabem que uma pessoa não ama outra só porque é educada, veste-se bem e é fã do Caetano ou Elis. Isso são só referências, detalhes, bônus.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pelo silêncio, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Não requer conhecimento prévio, nem vastas experiências de vida. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível.

Ama-se por ser exatamente igual, por ser exatamente oposto.

2 Por aqui, um pouco mais de "etc.":

airlon disse...

pergunto:

Srta. Calma, onde está ela??? Faz tempos que não a vejo por aí, perambulando com seus olhos rasos; se a ver, diga que peço que apareça! Bjo, saudações musicais...

APS

Luna Sanchez disse...

Reajo aos problemas exatamente como o moço do texto...sangue fervendo, cabeça à mil, desespero, doideira. E, para piorar, pessoas calmas pertos de mim, nessa hora, me irritam profundamente.

Depois que passa o furacão, sinto culpa, claro, e mesmo sendo a desafinação em pessoa, até canto Elis, para agradar. Rs

Beijo, Nana.

ℓυηα